maio 6, 2020 ·  4 min

Startup cria plataforma para compra de energias renováveis pelo celular

Tecnologia facilita transações entre produtores e consumidores finais usando aprendizado de máquina, internet das coisas e redes inteligentes de energia

The Funnel Brasil

A compra de energias renováveis para uso residencial vem sendo facilitada no país por uma combinação de mudanças regulatórias e novos modelos de negócios da economia digital. Um exemplo são as pequenas empresas especializadas na venda de créditos para abatimento na conta de luz residencial, como a Cartão Solar, de Santa Catarina, que vende assinaturas de cotas de energia de usinas fotovoltaicas. Ou a Enecred e a Metha Energia, de Minas Gerais, e a Sun Mobi, de São Paulo, com modelos semelhantes.

Agora, uma startup de João Pessoa, na Paraíba, está desenvolvendo uma plataforma para facilitar também o processo de compra de energias renováveis no mercado livre de energia, através do celular — ou pelo computador. O mercado livre de energia é onde médios e grandes consumidores negociam energia diretamente entre si, sem a intermediação de uma distribuidora. “Por envolver grandes volumes, o processo ainda é complicado, arcaico. Envolve traders. Você faz a sua carta de intenção, imprime, assina, digitaliza, manda. Não tem nenhum tipo de reconhecimento facial, de transação com o meio digital. Os processos levam dias”, diz Anderson Medeiros, CEO da Tradenergy, responsável pela iniciativa. “Nosso objetivo é facilitar e agilizar a compra e a venda de energias limpas, principalmente excedentes de produção, diretamente pelos consumidores. Se vai faltar energia para mim, vou lá e compro, como quem pede uma refeição no iFood, ou um Uber”.

Anderson Medeiros, CEO da Tradenergy. / Foto: divulgação

O público alvo inicial da plataforma, diz Medeiros, são consumidores de médio porte, como shopping centers, varejistas de médio e grande porte ou mesmo indústrias. Mas, no limite, será possível atender consumidores residenciais e recarregar a bateria de um carro elétrico nos pontos de produção de energias renováveis cadastrados, pagando através do aplicativo. O modelo de integração de produtores de energia à plataforma da Tradenergy prevê a instalação de tomadas de abastecimento junto aos medidores de energia inteligentes de unidades produtoras.

Hoje, a demanda mínima para a compra de energia no mercado livre é de 2,5 MW anuais, para energias não renováveis, e de 0,5 MW, para energias renováveis. O volume (0,5 MW) é suficiente para abastecer centenas de casas com dois quartos. Mas consumidores com demandas muito menores, reunidos sob o CNPJ de uma cooperativa de produção e consumo de energia, poderão fazer a compra de frações pequenas, diz Medeiros, em pontos de geração distribuída ligados à plataforma. “Já estamos em contato com a Coopsolar, na Paraíba”, afirma o empresário.

Trinca tecnológica

A plataforma combina três tecnologias: redes inteligentes de energia (smart grids), internet das coisas (IoT) e aprendizado de máquina, uma das modalidades da IA. Para as usinas, é preciso fazer um cadastro e integrar o smart grid à plataforma, através da internet (internet das coisas). A inteligência artificial aplicada ao sistema permite identificar, com o tempo, qual o excedente de produção estimado para cada uma delas, com base em informações como previsões climáticas e falhas no sistema. Para os consumidores de energia, basta se cadastrar na plataforma, usando um aplicativo para celular ou o site da Tradenergy. Uma vez cadastrado, o usuário pode consultar em um mapa as usinas com excedente de produção e o valor da energia disponível, para então fazer a compra, usando o cartão de crédito.

O modelo de negócio é baseado, do lado dos consumidores, em assinaturas anuais, que variam de acordo com o volume de consumo. O valor mínimo previsto é de US$ 2, por ano, para quem pretende apenas abastecer o carro, por exemplo. Do lado dos produtores, que definem o preço da energia, a Tradenergy fica com um percentual, nunca inferior a 2% do comercializado. Segundo Medeiros, a ideia é que, quanto maior o produtor, menor o percentual cobrado por unidade de energia vendida.

Uma crise no caminho

O projeto, iniciado em 2018, está em fase final de desenvolvimento. Os medidores inteligentes de produção e consumo (smart meters) encomendados para os testes finais chegaram em fevereiro deste ano, e foram instalados no Instituto Federal de Pernambuco, diz o empresário. Falta agora integrar os medidores à plataforma. “Nossa previsão inicial era de lançamento em maio. Mas, por causa da pandemia, atrasamos o desenvolvimento, e adiamos para julho ou agosto”, afirma Medeiros.

No final do ano passado, a startup recebeu apoio do Fundação Parque Tecnológico de Campina Grande, ligada à Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Este ano, entrou para o programa de inovação do Banco do Nordeste (um dos grandes financiadores da inovação na região), passou a ser incubada na Jump, a aceleradora de startups do Porto Digital, em Recife, e a buscar investidores para acelerar o desenvolvimento do projeto. “Já tínhamos fechado com investidores anjo. Mas com a Covid-19, houve uma solicitação para repactuação do cronograma de desembolsos. Também estávamos avançados nas discussões de um aporte de R$ 600 mil, com uma venture builder. Mas o processo foi interrompido”, diz Medeiros. A ideia, afirma, é encontrar outros investidores interessados em fazer o mesmo aporte.

Perspectivas externas

Uma vez testada e lançada a plataforma, a Tradenergy tem planos de lançá-la rapidamente também no mercado externo. Lá fora, depois de participar de grandes eventos como o Web Summit, Medeiros afirma que estabeleceu contatos e recebeu convites para levar a startup para Lituânia, Bélgica e Portugal. “Hoje, já temos uma personalidade jurídica em Portugal, e já somos consideradas uma empresa europeia também. Estamos inseridos num programa português, que já disponibilizou dez mil euros para que possamos investir em registro de marca, patente, formalização”, diz.