novembro 19, 2019 ·  4 min

Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem?

Mauro Wainstock*

A classificação da sociedade através das gerações etárias sempre auxiliou os pesquisadores a entenderem mudanças históricas e a mapearem necessidades específicas de cada um destes grupos. Mas será que um indivíduo com 39 anos é tão diferente daquele que acabou de completar 40 anos e que, de forma automática, passou a pertencer a um outro segmento? Será que este aniversariante se sente em outra etapa da vida no momento seguinte em que assopra a velinha?

O admirável mundo “algoritmizado” propiciou o surgimento de uma nova categoria que não é baseada necessariamente nos anos de vida, mas em desejos, interesses e comportamentos comuns, independente da faixa de idade. Trata-se do conceito de “Ageless Generation” ou “Perennials”, termo cunhado por Gina Pell, chefe de conteúdo da The What, que explica: “O mercado busca catalogar e homogeneizar nossos interesses, hábitos de consumo, até mesmo nossos valores e referências morais. Mas a realidade é que muitos de nós não se alinham com os rótulos que recebemos. Temos enorme capacidade de nos adaptar a mudanças, somos curiosos e estamos sempre florescendo. Enquanto estivermos com saúde, devemos continuar a crescer, aprender e explorar o que podemos fazer”.

Esta segmentação, que se caracteriza pelo mindset semelhante, é composta por indivíduos, de qualquer geração, que vivem o presente, são atualizados tecnologicamente, circulam em ambientes diversificados e convivem com múltiplas faixas etárias. Enfim, estão em constante evolução. Parafraseando o escritor francês Honoré de Balzac, “O homem começa a morrer na idade em que perde o entusiasmo”.

A cronologia cede espaço para a identidade social. Estes grupos não se moldam às expectativas geracionais, nem a regras e a costumes engessados. Têm como características intrínsecas a vontade de viver, a ânsia por aprender, o desejo de ousar e de se reinventar permanentemente, aspectos que se refletem na forma como encaram os desafios diários e a qualidade de vida. Abraçam causas e pretendem deixar legados. Junte-se a isto a prontidão para o desenvolvimento do autoconhecimento e da inteligência emocional e temos um profissional equilibrado e qualificado para o mercado de trabalho, ajudando a construir uma sociedade mais plural e inclusiva.

Conhecer esse perfil também é indispensável para a análise dos novos modelos mercadológicos. Eles já são 17% da população, mas correspondem ao dobro disso em potencial de consumo e ao triplo na capacidade de influenciar os demais. Para Walter Longo, ex-presidente do Grupo Abril, “trata-se de uma tribo que aposenta de vez a “Idade Média” e inaugura a “Idade Mídia”. A publicidade precisa ficar atenta”. Sem dúvida, cada um de nós se tornou um canal próprio de comunicação. E assumiu o protagonismo com a capacidade de persuadir, disseminar informações e estimular atitudes.

A outrora “civilização da média”, alicerçada por notas escolares “acima de 5 para passar de ano”; padrões comportamentais “commodizados”, focados no desempenho regular, ou a fabricação de produtos pasteurizados, que eram praticamente a única opção do mercado, cederam lugar a uma realidade cada vez mais ágil, global e competitiva, em que posturas inovadoras e a busca incessante pelo máximo não são opções, mas valores intrínsecos apresentados pelos verdadeiros vencedores.

Neste universo, a meritocracia é baseada na valorização da resiliência, destacada pelo propósito e avaliada pela capacidade de executar e de produzir resultados. Não basta ter iniciativas, mas também “acabativas”. Tudo junto e misturado. As profissões modernas envolvem atividades mais intelectuais e menos físicas e repetitivas – que serão exercidas pela automação. Desta forma, profissionais devem ressignificar a carreira através da construção de ricos insights. “A inteligência artificial não vem para roubar o emprego, mas para devolver a nossa humanidade”, garante Walter Longo. Para ele, a robotização permitirá que o tempo que seria destinado a tarefas burocráticas possa ser utilizado para incrementar o convívio familiar.

Paralelo às modernas formas de trabalho, também surgem modelos de relacionamento disruptivos. O networking pontual vem se transformando no “Netliving”, um estilo de vida com conceito mais colaborativo e permanente. E o “Homebody Economy” reforça esta cultura, agregando comodidade e redução de despesas.

Há alguns anos era difícil imaginar concorrentes dos fast-foods fora da área de restaurantes. Hoje, estas empresas estão preocupadas com delivery de entregas de comida e provedores de programas via streaming, como o Netflix, que estimulam o lazer e a alimentação em casa.

“O maior concorrente do McDonald’s hoje em dia é o iFood. Você pede de onde quiser, qualquer tipo de comida, em todas faixas de preço, e eles entregam rápido. E eles hoje já são quase do mesmo tamanho do McDonald’s do Brasil”, comentou o diretor da rede, Marcelo Nóbrega. Detalhe: a cadeia mundial de restaurantes foi criada em 1940 e o iFood surgiu em 2011.

Com os custos permissivos da tecnologia, a individualização também se tornou uma tendência irreversível. Medicamentos genéricos, encapsulados em longas bulas descritivas, vem sendo substituídos por receitas formuladas exclusivamente para aquele DNA ímpar.

O mesmo ocorre no caso da educação. Cada vez mais o ritmo e os interesses de cada aluno serão respeitados com a introdução de metodologias interativas, agradáveis e criativas, que ampliam a experiência e fortalecem a absorção do conhecimento. As disciplinas tendem a privilegiar o raciocínio, as habilidades comportamentais e questões do dia a dia, como a ética, o voluntariado, a economia doméstica e o empreendedorismo. O conteúdo é aprofundado pela diversificação do debate, enquanto a saudável troca intergeracional proporciona o enriquecimento dos envolvidos.

Se a vida começa aos 40, convido estes “jovens 40+” a pensar o que farão até os 120 anos e cito uma provocação do pensador chinês Confúcio: “Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem?”

Mauro Wainstock* tem mais de 30 anos de experiência em jornalismo e marketing. Atua como palestrante, consultor e CEO do HUB 40+