setembro 28, 2019 ·  7 min

Portugal Exponencial

O país isolado e subdesenvolvido que um dia aspirou, pelas palavras do seu primeiro ministro, “transformar-se numa Suíça”, hoje, mais de quarenta anos depois, vive uma era de encanto internacional e prêmios constantes – um Portugal exponencial

Por Manuel Machado*, de Portugal

Pode soar como clichê para quem ouve falar de Portugal, mesmo que remotamente, dizer que o país é hoje um pequeno paraíso. Ainda que relativamente desconhecido mesmo para os europeus, todos os que ouvem falar dele não conseguem escapar da descrição das praias maravilhosas, da gente simpática, da história e, é claro, da comida divina. Mas a visão de que se trata de um país apenas turístico está mudando. Hoje, Portugal fervilha com tecnologia, negócios, inovação e empreendedorismo. Está no centro de rotas globais e o futuro se mostra cada vez mais promissor. O nome (e a marca) de Portugal tem ganhado relevância não só pelos esforços do Turismo de Portugal, ou por nomes como Cristiano Ronaldo e José Mourinho, Mário Centeno (atual presidente do Eurogrupo), Carlos Moedas (comissário europeu para a investigação, ciência e inovação) e António Guterres (atual secretário-geral da ONU). Mas também pelo trabalho pioneiro de startups e empresas maduras com imenso potencial inovador, nas mais diversas indústrias — exemplos são o papel higiênico preto da Renova e a entrada da Farfetch na bolsa de Nova York.

O anúncio no ano passado da extensão por mais dez anos de edições do mundialmente reputado Web Summit no país, fez com que a alavancagem do potencial de Portugal fosse efetiva. Serviu de carimbo para atestar que viver, trabalhar e investir no país é uma aposta realmente promissora. Uma das muitas provas disso foi o aumento do investimento por parte de fundos de venture capital, que só no ano passado somou mais de 450 milhões de euros, de acordo com dados do relatório deste ano do Transactional Track Record.

Abertura do Web Summit 2018, na Arena Altice, em Lisboa, Portugal.

Em 2015, quando a jornalista Caroline Hyde, da Bloomberg, se referiu a Lisboa como uma São Francisco na Europa, talvez não imaginasse que poucos anos depois as duas cidades estariam conectadas por voos diretos cinco vezes por semana, uma ligação que estreitou ainda mais os 9 mil kms que separam Lisboa daquele que é tradicionalmente conhecido como o centro global para a alta tecnologia e inovação.

Mas não são apenas as semelhanças e a proximidade com São Francisco que tornam Portugal um local atraente para viver e fazer negócios. As condições sociais e políticas são um dos fatores mais importantes para que Portugal seja destaque europeu e mundial.

A recente classificação como o 3º país mais pacífico do mundo pelo Global Peace Index confirmou a forte procura por Portugal, ao longo dos últimos anos, por conta da onda de ataques terroristas em toda a Europa. Condições como esta, somadas aos salários baixos (abaixo da média da UE) e fortes apoios ao investimento externo tornam Portugal um país especialmente atraente para empresas que procuram geografias com grande potencial de desenvolvimento. A constante prospecção e consolidação de uma variedade de grandes empresas internacionais, está transformando Portugal em um verdadeiro hub de inovação de nível global. Entre os investimentos já confirmados, estão os seguintes:

VOLKSWAGEN: Inaugurado este ano em Lisboa, o Centro de Desenvolvimento de Software da companhia prevê a contratação, nos próximos dois anos, de 300 profissionais entre engenheiros de software, programadores web e UX designers.

BOEING-EMBRAER: Com a recente aquisição de 80% da empresa brasileira Embraer pela norte-americana Boeing, prevê-se a contratação de mais de 500 engenheiros, nos próximos quatro anos, na fábrica que pertencia à Embraer, em Évora.

GOOGLE: Foi anunciada no final do ano passado a expansão do atual centro de inovação do Google em Oeiras, com a contratação de cerca de 800 colaboradores. A meta da companhia é formar 3 mil programadores no sistema operacional Android em Portugal até ao final de 2019.

BMW: Anunciada no ano passado, uma joint venture entre a marca de carros e a empresa tecnológica portuguesa Critical Software deu origem à Critical Techworks, que hoje tem escritórios no Porto e em Lisboa e pretende contratar mais cerca de 500 pessoas até 2020.

DAIMLER AG: Em 2017 nasceu a Mercedes-benz.io, com o Digital Delivery Hub, um centro digital para desenvolver soluções tecnológicas, que estima atingir 300 postos de trabalho até 2020. Ainda este ano (2019), nasce também uma iniciativa da divisão de Trucks & Busses, que pretende trabalhar temas como o “futuro da logística”, como anunciado pela empresa na inauguração.

UBER: Inaugurada em 2017, como centro de excelência para a operação europeia, conta já com 400 colaboradores e pretende contratar mais 200 até o final do ano.

HUAWEI: Vai inaugurar em setembro, em Lisboa, seu único centro de suporte de redes 4G e 5G na Europa, e pretende empregar cerca de 150 engenheiros até o final do ano.

A lista poderia ser maior e incluir nomes como Siemens, Continental Mabor, Bosch, Gabor, Cisco, SAS, entre outras, todas empresas internacionais com operações consolidadas e investimentos confirmados em Portugal .

Ponte 25 de Abril, Lisboa, Portugal.

Mas não só de grandes empresas se faz o progresso em Portugal. Não dá para ignorar o crescente ecossistema de startups que já representa cerca de 1,1% do PIB português, que em 2018 foi de 201 bilhões de euros. O sentido empreendedor sempre foi uma característica marcante do povo português. No passado, com as descobertas marítimas. Hoje, com os negócios. Seria impossível falar de startups portuguesas sem falar de algumas das nossas “jóias da coroa”, como:

UNBABEL: Plataforma de tradução com inteligência artificial. Captou, no final do ano passado, 23 milhões de euros com investidores como Microsoft, Samsung e Salesforce.

HUUB: Pretende ser a “Amazon da moda”. É uma empresa de logística que já recebeu mais de 4 milhões de euros de investimento desde 2014. Planeja expansão para os EUA e vai abrir cerca de 60 posições, até ao final de 2020, nos escritórios em Portugal.

TALKDESK: Considerada um dos unicórnios portugueses, recebeu no ano passado mais uma rodada de investimento, de mais de 85 milhões de euros, e está hoje avaliada em 1,2 bilhões de euros. Oferece software empresarial na nuvem para call centers de pequenas e grandes empresas.

CODACY: Utiliza inteligência artificial para rever códigos. Recebeu o Beta Award em 2014, promovido todos os anos pelo Web Summit. Foi a primeira vez que Portugal e este evento cruzaram olhares. Há quem diga que este foi o momento que serviu de faísca para confirmar a vinda do Web Summit para Lisboa, em 2016.

ZAASK: Uma das primeiras empresas incubadas na Startup Lisboa. Nasceu como marketplace de serviços que quer conectar desempregados com pequenos trabalhos. Foi um dos primeiros investimentos da SIC ventures, unidade de capital de risco do Grupo Impresa, um dos maiores grupos de mídia em Portugal.

DEFINEDCROWD: Focada na análise de dados para a comunicação homem-máquina, pretende ajudar robôs a compreenderem melhor as pessoas. Quer ser o “próximo unicórnio português”, aspiração baseada no crescimento de 600% ao ano, e prevê uma nova rodada de captação, de 40 milhões a 50 milhões de euros, até o final do ano.

Bonde antigo em Lisboa, Portugal

É importante destacar que a efervescência deste ecossistema tem sido motivada, em grande parte, por sinergias entre o governo, a UE e iniciativas privadas que mostram a acentuada determinação em promover o florescimento deste ambiente, com projetos como:

STARTUP HUB: Plataforma que conecta startups, scaleups, incubadoras, aceleradoras e investidores no ecossistema português.

FINLAB: Instituição pública que junta organizações como o Banco de Portugal, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões para trilhar o caminho na regulação das FinTech, InsurTech and RegTech.

STARTUP VISA: Programa de vistos especiais de residência para fundadores de startups de fora da zona UESchengen. Candidaturas disponíveis durante todo o ano.

REDE NACIONAL DE INCUBADORAS: Mapa de mais de 130 incubadoras espalhadas por todo o território nacional, que apoiam mais de 3 mil startups.

FUNDO 200M: Fundo de 200 milhões de euros para coinvestimento entre entidades privadas e startups.

Em paralelo a estas iniciativas, a Comissão Europeia apresentou este ano as novas perspectivas de investimento da União Europeia para 2021-2027, assinalando como um de seus principais direcionadores “uma Europa mais inteligente, graças à inovação, à digitalização, à transformação econômica e ao apoio às pequenas e médias empresas”. Este esforço contínuo pela liderança mundial na inovação reflete-se na melhoria dos resultados de desempenho nos últimos quatro anos, no Innovation Scoreboard da Comissão Europeia, no qual a Europa ultrapassa os EUA em 2019.

Apesar de partilharmos a “casa” com países que lideram a inovação mundial, como a Suécia, Holanda, Alemanha e Reino Unido, o Innovation Scoreboard ainda descreve Portugal como “moderadamente inovador”, um lugar modesto, no meio da tabela e abaixo da média da UE. O mesmo percebe-se no Índice de Inovação da Bloomberg, que coloca Portugal ainda bem abaixo do esperado, atrás de países como a Turquia, a Malásia e a Eslovênia. Destacam-se os valores baixos no que toca à alta tecnologia e à atividade com patentes, uma amostra de que ainda há muito a fazer em termos de inovação em Portugal.

Esta situação agrava-se ainda quando se percebe que a qualificação dos recursos humanos em termos digitais está bastante aquém do necessário. No estudo lançado este ano pela consultoria EY, intitulado Portugal Digital, percebe-se que 74% dos líderes de opinião acham que existe falta de recursos humanos qualificados, com competências digitais, e que os próprios gestores das empresas não têm conhecimentos sobre experiências digitais para tomar decisões ou definir estratégias nesta área.

As lacunas de mão de obra especializada em Portugal levaram à criação de programas de incentivos para a imigração de talentos, como o Programa Tech Visa – programa de vistos inicialmente criado para motivar a imigração de altos talentos tecnológicos, mas agora aberto também a outros setores. A demanda aparece em um estudo da Manpower, empresa de recrutamento de trabalho temporário, que mostra que 46% das empresas não conseguem encontrar o talento necessário, o que foi reforçado pelo coordenador do Observatório da Emigração que afirma que Portugal “precisa desesperadamente” de imigrantes.

Apesar dos desafios, Portugal é hoje definidamente um país voltado para a inovação, os negócios e as pessoas, que aspira novas ideias e tem no empreendedorismo um importante motor de desenvolvimento econômico e social. Um Portugal aberto a novos desafios, que indiscriminadamente procura gente determinada a construir um futuro nada menos que exponencial.