abril 7, 2020 ·  5 min

“O mais desafiador é estimular um novo jeito de pensar”

Entrevista com Carolina Sevciuc, diretora de transformação digital da Nestlé, fala sobre os processo de inovação e adaptação cultural da companhia a novos modelos de organização do trabalho e gestão

Por Melissa Rossi

Carolina Sevciuc, diretora de transformação digital da Nestlé, diz acreditar que inovação se faz junto, inspirando, aprendendo, errando, incentivando e gerando empoderamento das pessoas e das conexões. Há 11 anos na companhia, atuou em diferentes áreas, sempre com foco em marketing e negócios, o que, segundo ela conta, lhe permitiu uma visão bastante integrada e holística do que a empresa faz. Em 2014, criou a área de inovação e novos negócios na filial brasileira da Nestlé e, desde então, soma cases relevantes de interatividade com o consumidor, ao inovar em produtos, serviços e modelos de negócios. Foi essa trajetória como executiva que a gabaritou para liderar o processo de transformação digital da Nestlé. “Hoje vivo um dos maiores desafios da minha carreira. Vivenciar o relacionamento das nossas marcas com os consumidores também tem me ajudado muito a conduzir essa transformação internamente”, afirma. Na entrevista a seguir, Carolina fala sobre os planos e desafios da Nestlé para incorporação de uma nova cultura
e de processos de inovação.

O que é inovação para a Nestlé?
Para a Nestlé, inovação envolve buscar novas formas de interagir com o consumidor e conhecer suas preferências, por meio de ativações, degustações e ações específicas de produtos e serviços de todas as marcas da companhia. Nosso time busca inovar não só em produtos, mas também em serviços e modelos de negócios, sempre com foco na oferta da melhor experiência para o consumidor. Envolve também repensar como a marca se posiciona, como
dialoga com as pessoas de forma ativa e que traz resultados concretos.

Como a Nestlé tem se posicionado nesse tema?
Atualmente, a Nestlé vem reforçando a participação da inovação e da transformação digital como parte central da estratégia de negócios da companhia. A Nestlé coloca em prática a transformação digital por meio do engajamento das pessoas (consumidores), vendas digitais, novos modelos de negócio e de serviços, operações digitais, tecnologias parceiras e análise de dados. Atuamos sob uma estratégia de transformação digital da companhia no Brasil. Estamos olhando para todas as nossas operações com esse viés de busca de novas tecnologias e inovações que permitam digitalizar e transformar o modo como atuamos, trazendo maior integração, eficiência e agilidade para todos os processos.

Quais são as diretrizes da matriz para trabalhar a inovação dentro da corporação?
A Nestlé procura sempre entender e se antecipar às mudanças e evoluções que impactam o comportamento e o estilo de vida das pessoas. Em 2015, iniciamos um processo de transformação de cultura com foco em trazer a inovação para o core business, como parte estratégica do negócio.

“Estamos olhando para todas as nossas operações com esse viés de busca de novas tecnologias e inovações que permitam digitalizar e transformar o modo como atuamos”

Que iniciativas já estão definidas para a área? Quais as principais metas, no curto e médio prazos?
Para fomentar iniciativas inovadoras, olhamos para dentro e para a fora, buscando fazer parte de um ecossistema maior de inovação. Investimos em
pesquisa e desenvolvimento, aceleramos startups que nos conectam com um mindset empreendedor, temos iniciativas de inovação aberta e programas de intraemprendedorismo.

O foco, inicialmente, será na área industrial ou em outras áreas mais ligadas à relação com os consumidores?
De um lado, a Nestlé tem investido em uma estratégia global de automatização de suas operações, em busca de aceleração, otimização e
maior eficiência em todas as áreas da companhia. Na área operacional, a empresa tem trabalhado com o conceito de Connected Fabric, que combina
inteligência e inovação dentro dos processos fabris. Os investimentos começaram em 2016, com a implementação do primeiro robô em unidade
fabril do país. Desde então, a companhia está em uma jornada crescente de robotização. Só em 2018, foram mais de 60 robôs implementados nas operações da Nestlé. Um exemplo é a fábrica de Nescafé Dolce Gusto, em Montes Claros (MG), onde todas as operações são centralizadas e informatizadas, controladas por meio de painéis touch screen. De outro lado, a Nestlé fechou parcerias com empresas que fazem parte desse novo momento de transformação digital como a Supermercado Now (com as Lojas Nestlé); Marmotex e Delivery Much (chocolates); e scales-ups que têm produtos vendidos nas Lojas Nestlé como Roots to Go, W Nutritional, No Moo e + Moo. Também em linha com a gestão da inovação, a Nestlé tem buscado parceiros para alavancar novos negócios, caso do investimento no programa Scale-up Endeavor — Alimentos e Bebidas. A iniciativa oferece apoio a empreendedores nos mais diversos setores e regiões por meio da comunidade formada entre os participantes e da conexão com a rede de mentores da Endeavor. Após passarem por um processo de aceleração de seis meses no programa, 19 empresas iniciantes no mercado tiveram a oportunidade de participar de encontros coletivos, debates, eventos e orientações com grandes empresas, como a Nestlé, para potencializar seus negócios. Ao final do processo, as scale-
ups registraram resultados importantes, como crescimento de 23% no número de funcionários em 2019 (em comparação com 2018) e um aumento de 124% no faturamento de 2018 (em relação a 2017). A previsão é que o faturamento delas em 2019 cresça ainda mais.

Além da criação do seu cargo, como a companhia está se estruturando para essas transformações?
Em 2014, a companhia começou a destinar recursos financeiros para inovação voltados para produtos. Ao longo desses cinco anos, o processo foi evoluindo para o formato que temos hoje na Nestlé, em que a inovação funciona como uma startup dentro da companhia, utilizando metodologia de design sprint para o desenvolvimento de novos produtos e embalagens. Em 2015, foi criado o Hub de Inovação Nestlé Brasil estruturado em três áreas principais — Inovação, DataLab e Digital Sales (e-commerce). Também investimos em iniciativas internas que nos ajudaram a olhar com mais cuidado e maior amplitude para essa frente, fomentando a cultura da inovação e transformação digital para todas as áreas e profissionais da companhia.

Por que a companhia decidiu iniciar o processo agora? Que fatores levaram a essa decisão?
A Nestlé sempre investiu, de forma consistente, em inovações. Antes, esse investimento era focado, principalmente, no desenvolvimento de produtos. Mas a partir de 2014, a companhia iniciou a estruturação de um hub de inovação, que é uma das três subáreas da área de transformação digital. Assim, a inovação passou a ser o core da Nestlé, sendo abordada de uma forma mais ampla e dedicada. Nos últimos 5 anos, aumentamos consideravelmente nossa estrutura. Iniciamos a equipe com 7 pessoas e, hoje, já temos mais de 20 dentro da área, além de 7 grupos de pesquisa e desenvolvimento, totalizando mais de 120 colaboradores no Brasil.

Quais principais temas dentro da inovação que você enxerga como maiores desafios?
Acredito que o aspecto mais desafiador é realmente estimular esse novo jeito de pensar. A transformação de cultura em toda a empresa, nas diferentes áreas e em todos os níveis, é algo único, genuíno e extremamente desafiador, porque extrapola questões técnicas. Envolve, acima de tudo, promover uma mudança de mindset em toda a organização, com convergência para novos
processos e formas de atuar.

Ao final do processo, as scale-ups registraram resultados importantes, como crescimento de 23% no número de funcionários em 2019 (em comparação com 2018) e um aumento de 124% no faturamento de2018 (em relação a 2017).

Como você realiza integração com os demais líderes das outras áreas para incluir as diretrizes de inovação? Por exemplo, o RH precisa geralmente mudar o mecanismo de trabalho, disseminar a cultura de inovação para toda empresa, etc. Como é feita essa integração?
Além das competências mais tradicionais, de foco, iniciativa e cooperação, a Nestlé passa por um grande processo de inovação e transformação digital, e tem buscado jovens com visão empreendedora, capazes de se adaptar e gerir mudanças e preparar a empresa para essa nova realidade no curto e no médio prazo. Nessa linha, temos apostado em iniciativas de fomento ao intraempreendedorismo para gerar novas oportunidades de negócio em duas frentes, de produtividade e sustentabilidade. Também buscamos um novo olhar e novos formatos para nossos processos de seleção de novos profissionais. Temos, ainda, novidades no radar, que envolvem parcerias com startups exatamente como meio de acelerar novos negócios dentro da Nestlé, transformar a cultura interna e atrair/reter novos talentos, jovens com mindset empreendedor. Temos ainda a frente de inovação aberta, como forma de ampliar capacidades técnicas, oxigenação de cultura e geração de negócios.