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Edição de primavera de 2020

De agosto de 2019 a janeiro deste ano, alguns dos principais representantes da iniciativa privada mundial se propuseram a migrar de um modelo de negócios baseado na maximização dos lucros para os acionistas para o que passou a ser chamado de capitalismo de stakeholders. Na prática, a sinalização de entidades como o Business Roundtable, a maior organização do tipo nos Estados Unidos, do Fórum Econômico Mundial, só para citar algumas, é de que é preciso pensar em gerar impacto positivo para a sociedade, meio ambiente e trabalhadores.

Os princípios do ESG (ambiente, sociedade e governança, na sigla em inglês) são a ponta mais evidente deste movimento. Porém, do discurso à prática é que são elas. Ainda mais com uma pandemia no meio do caminho. No contexto da covid-19, para além dos profissionais de saúde, não é exagero dizer que os aplicativos de entrega e seus motoqueiros foram protagonistas no Brasil. Ponto para a inovação. Mas também um alerta: o jargão dos empreendedores e departamentos de inovação de atacar uma dor do mercado precisa ser melhor compreendido.

A pandemia expôs a insatisfação de duas pontas importantes do negócio dos apps de entrega, os restaurantes e entregadores. É sobre isto, a partir dos modelos de negócio das empresas focadas na chamada última milha, que a sétima edição da The Funnel Brasil se propõe a debater.

Em entrevista ao editor Dubes Sônego, o vice-reitor da escola de negócios do MIT, Michael Cusumano, destaca que há um limite de quanto as plataformas podem cobrar e ganhar de restaurantes e entregadores. Além, claro, da necessidade de se discutir os impactos socioeconômicos de suas atividades. No caso dos motoqueiros, fora a questão da remuneração, os números de aumento de acidentes em 2020 são alarmantes.

Há, sim, inúmeras oportunidades de negócio ao se olhar para uma determinada dor. Mas a realidade é de muitas dores interconectadas. Sem um olhar sobre toda a complexidade de um ecossistema, a disrupção aclamada e valorizada de um novo modelo de negócio se põe xeque.

Guilherme Manechini
Diretor de redação da The Funnel Brasil