abril 7, 2020 ·  8 min

“Estamos sem um projeto educacional para dar suporte à inovação”

Para o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, mais importante que reduzir a burocracia é formar mão de obra para que o país possa acompanhar a transformação digital do mundo

Por Dubes Sônego

Do alto do 16o. andar do prédio sede do Porto Digital é possível ver a maior parte do centro antigo do Recife, berço da capital pernambucana. Nos últimos 20 anos, muitos dos prédios históricos do entorno foram restaurados por empresas nascidas ou atraídas para a região pela criação deste que é hoje o principal parque tecnológico do Nordeste, e um dos principais do país. A área, inicialmente degradada, abriga atualmente mais de 300 empresas, além de centros de pesquisa, escolas, coworkings, museus, bares, restaurantes e outras atrações. É o maior legado do parque tecnológico, na visão de Pierre Lucena, presidente do parque tecnológico há cerca de um ano. E é sobre esta base, construída ao longo de duas décadas, que a direção do Porto acredita ser possível dobrar de tamanho, nos próximos cinco anos. “Assumi aqui com uma proposta muito clara de crescimento”, diz. Entre os maiores desafios que se impõem, no entanto, estão a escassez de mão de obra e de dinheiro para ampliar o número de empresas incubadas. Na entrevista a seguir, Lucena fala sobre as dificuldades que vê pela frente e os planos de crescimento do parque.

Qual o atual estágio de desenvolvimento do ecossistema de inovação em Recife?

O Porto Digital é um parque tecnológico diferente. É aberto, é o centro da cidade. Já está com 19 anos, tem 328 empresas e em torno de 10 mil pessoas trabalhando. É razoavelmente maduro. Crescemos em muitos momentos com recursos públicos. O parque foi formado dessa forma. Mas a partir de 2015/2016, houve um esgotamento do modelo. Assumi aqui faz um ano com uma proposta muito clara de crescimento, de dar uma “pivotada”, aliando a necessidade de crescimento do parque com a necessidade de geração de empregos e inserção maior no setor privado, para buscar projetos e coisas que pudessem alavancar o nosso ecossistema. O que a gente quer agora é chegar em 2025 com pelo menos 20 mil pessoas trabalhando, ou faturando o dobro (hoje, faturamos perto de R$ 2 bi) ou com 600 empresas. Queremos acelerar esse processo de crescimento, até para nos firmarmos como polo relevante no Brasil. Hoje, são poucos os polos de tecnologia relevantes no Brasil. Recife, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Florianópolis. Esses clusters vão ficar cada vez mais fortes, porque além de terem uma rede de negócios mais forte, conseguem atrair capital humano.

E quais os principais desafios para acelerar o crescimento?

Estamos sem um projeto educacional para dar suporte a essa política de inovação, que é uma necessidade, por sermos um país grande, que tem volume de negócios significativos em termos globais. Quando você pega os líderes de inovação, você tem o primeiríssimo nível: China e Estados Unidos. Depois vem o segundo time, com Japão, Índia, Inglaterra e Alemanha. E você tem o terceiro, com Israel, Portugal. Em termos globais, o jogo está sendo ganho de várias formas. Duas são muito importantes. A rede de negócio e de novas empresas que você consegue formar. E a mão de obra disponível para tocar os projetos. Estamos no jogo, com possibilidade de irmos do terceiro para o segundo time. Mas precisamos de uma estratégia. E hoje não temos. O Brasil forma por ano 46 mil pessoas nas áreas de tecnologia, incluindo as engenharias e mais um monte de coisas, que não são tecnologia mesmo. E abre 70 mil novas vagas. Este é o grande gargalo hoje dos ambientes de inovação como um todo. Tirando a China, que forma gente em larguíssima escala, todos os outros países têm dificuldade. O que torna o nosso desafio ainda maior, porque Alemanha, Canadá, Suécia, Portugal, vêm todos aqui oferecer emprego e qualidade de vida.

Edifício sede do Porto Digital, em Recife. / Foto: divulgação.

O que vocês vêm fazendo para minimizar o problema da falta de mão de obra?

Fizemos um evento de contratação grande aqui, um teste, chamado “empregaço”. Juntamos nove empresas, oferecendo 240 vagas, mais ou menos, em um processo coletivo, com chamada foi única. O candidato fazia uma prova só. Isso ajudou a minimizar custos de contratação e a atrair candidatos. Porque não é só a marca de uma empresa, é a marca do Porto Digital. O cara olha e pensa: “estou recebendo uma proposta para trabalhar em um cluster, não em uma empresa”. Queremos levar o evento agora para João Pessoa e Aracajú.

O plano também passa por formação de mão de obra?

Passa. Nos juntamos com três instituições de ensino. Com a Universidade Católica, em um curso de graduação, que começou este ano. Com a Universidade Tiradentes, lá de Aracaju, que tem um centro universitário aqui em Recife, começamos em julho de 2019. E com a Fundação Dom Cabral. A gente lança cursos com duas marcas. Por exemplo: Universidade Católica e Porto Digital. Montamos o currículo, o programa de residência nas empresas e trazemos a galera para fazer. Mas são principalmente para o coder em início de carreira. No primeiro semestre, o cara já vai se submeter a problemas reais das empresas patrocinadoras do programa. A empresa leva um problema, monta squads, avalia os projetos.

E vocês conseguem aumentar em quanto a formação de mão de obra com isso?

Estamos fazendo projetos com três universidades. Mas estou atingindo a classe média. Quero saber quem vai botar as classes C, D e E para dentro do processo. Ou a gente inclui essa galera toda, ou a gente não tem projeto. Perdemos o FIES, perdemos a expansão das federais, que abriram curso adoidado com empregabilidade nenhuma: museologia, engenharia naval. Temos 850 mil alunos de direito, com uma população que tem 2% de pessoas formadas na área. A USP tem 250 alunos da computação de ciência da computação e 2,4 mil alunos de direito. A grande questão é como vamos incluir os estudantes mais pobres na tecnologia. Tem que ser subsidiando. Tem que ser um projeto de país. Estamos arriscados a ir para o fundo do poço da inovação se a gente não carrear isso em larga escala. O que está acontecendo na China não é por acaso. A China forma hoje 40% de sua mão de obra total em exatas. É um projeto de Estado. Os empresários reclamam. Mas o ambiente de negócios não é o principal problema do Brasil. Não é a burocracia. O governo atrapalha um pouco, tem a questão da legislação. Mas o empresário brasileiro já está acostumado. O problema relevante é educação, é falta de mão de obra..

O que vocês estão fazendo, então, é tentar minimizar o problema.

A gente está minimizando o problema como pode. Pegando engenheiro e transformando em codificador. Temos um programa para isso hoje. Estamos formando na velocidade que conseguimos. Esperávamos 35 alunos da turma da Unit, tivemos cento e poucos. Fazemos o que é possível sem grana pública. Mas, a partir de agora, o governo tem que fazer.

Quantas vagas o Porto Digital tem abertas?

Temos mil vagas abertas, mais ou menos. E se eu tivesse gente para preencher essas mil, no dia seguinte apareciam outras mil vagas. Isso não quer dizer que pessoas não estão sendo contratadas. A Accenture, por exemplo, precisa contratar 2,5 mil funcionários até o final do ano de 2020. Se você chegar lá com 500 pessoas, ela vai contratar e abrir mais 500 vagas. E, então, aparece mais um projeto para outras 500. Os projetos de codificação estão migrando para onde tem mão de obra disponível. O André Esteves esteve aqui recentemente. Está formando uma escola de informática. Disse que as empresas com as quais está conversando estão recusando projetos porque não têm quem produza mais.

LOUCo (Laboratório de Objetos Urbanos Conectados), do Porto Digital. / Foto: divulgação.

A mão de obra que vocês precisam aqui hoje é só de programadores?

Somos especializados em softwares. Nossas vagas estão localizadas na área de entrada, o codificador júnior, que vai entrar nessas empresas de sistemas e trabalhar geralmente para adaptação de sistemas SAP e essas coisas. E você tem engenheiros de software que vão desenvolver inovação de alto nível lá no CESAR e em empresas como Inloco e Neurotech. Esse engenheiro de software sênior é muito difícil de achar, no Brasil todo. É o cara que vai ganhar de uns R$ 20 mil para cima e comandar a equipe para montar projetos inovadores. É um cara que precisa de tempo para formar. E hoje a gente precisa de velocidade. Então, algumas empresas, como o CESAR, estão formando o próprio programador júnior, acelerando a carreira dele, transformando em desenvolvedor e, depois, em engenheiro de software. Mas esse cara é muito difícil hoje, muito requisitado em qualquer lugar do mundo.

Além da formação e atração de mão de obra, há mais alguma ação para impulsionar o crescimento nos próximos anos?

Formar novas empresas. Já temos uma incubadora muito relevante aqui, que a gente escalou. Em 2018 a gente fez 17 novas empresas. Em 2019, fizemos 80. Em 2020, quero fazer ao menos 120. Mas preciso de grana para montar mais coworking, para ter espaço, para pagar mentores, que são essenciais para ajudar a reduz o risco dos negócios. O que quero fazer em 2020 é expandir isso, buscar mão de obra e assumir um papel mais relevante na revitalização do centro, com o apoio da prefeitura. O restauro do bairro histórico do Recife foi a coisa mais relevante que o Porto Digital fez em sua história.

E o que podem fazer aqui ainda?

Tem muito prédio que já não tem viabilidade econômica, que não dá para restaurar. Mas ainda tem áreas de expansão aqui. Alguns galpões. Tem o projeto do Moinho Recife, muito grande, que vai gerar 50 mil metros quadrados de área. Só para se ter uma ideia, nós até hoje restauramos 80 mil metros quadrados de área. Vai ter moradia, hotel, áreas empresariais e um mall. Já começou a obra. Quem está fazendo é o grupo Moura, com alguns membros do grupo Tavares de Melo. Vai ter mais espaço para crescer.

Hoje já está apertado?

Hoje já é difícil encontrar. Dá para se virar ainda. Mas, para um projeto de expansão mais robusto, a gente vai precisar. Até porque, aqui, a gente gostaria que tivessem outras empresas que não só de software. É um coisa importante para a cidade mesmo.

E o Porto vai ser mais ativo na revitalização de que forma?

A gente quer ir para o bairro de Santo Antônio, aqui na frente, que é uma área de expansão nossa, pela legislação. A gente nunca conseguiu chegar e quer agora montar moradia lá. Porque o Porto, em geral, não têm moradia. A ideia é povoar, para ter vida à noite.

E você consegue fazer isso como?

A gente está juntando investidores, buscando quem faça. Mas é um projeto de mais longo prazo, não é uma operação tão trivial assim.

Sala de edição e tratamento de imagem da Portomídia, no Porto Digital. / Foto: divulgação.

E quem é que investe nos projetos de vocês hoje?

A gente, mesmo. Alguns prédios aqui são nossos, alugamos para as empresas. O custeio é pago com isso. São 13 prédios, que na verdade viraram oito, hoje, porque a gente juntou. Agora a AD Diper, a agência de desenvolvimento do Estado, vai ajudar a gente também a dobrar a incubadora. Quem ajuda muito também é o SEBRAE.

Que startups estão despontando aqui e ainda não apareceram em âmbito nacional?

Temos várias que a gente mesmo fundou nos nossos programas de incubação. A Inloco vai ser provavelmente o nosso primeiro unicórnio. Já está faturando aí os seus R$ 100 milhões. É uma empresa de georreferenciamento e geolocalização, para fazer mídia. A gente tem a Neurotech, de inteligência artificial. Já está faturando uns R$ 50 milhões. A Tempest, nossa empresa de classe mundial aqui, fatura já R$ 130 milhões é líder em cyber segurança na América Latina. Está escalando bem. E temos algumas startup bem promissoras. A Salvus e a Pixels, de saúde. A Fusion. Temos um conjunto de empresas começando a ganhar consistência para crescer bastante.

E já estão tendo muita visibilidade de fundos de investimento de fora do Brasil?

Já tinha visibilidade. Agora, a gente começou a organizar melhor isso. Criamos um comitê de investimentos. Estamos começando a atrair para cá investidor no nível que queremos, com eventos, rodadas de negócios. Até então, as startups estavam correndo muito por conta própria. Os grandes bancos ainda não sabem como trabalhar com esse negócio, estão aprendendo. Mas estão querendo se aproximar. O Bradesco está hoje muito próximo do Porto Digital. O Itaú está se aproximando também. Recebi o André Esteves, querendo também conhecer o Porto Digital. Há uma aproximação para ver o que vai acontecer.

Os grandes grupos econômicos da região estão começando a olhar para a Inovação e Tecnologia?

Muito. Toda semana eu recebo alguém de uma empresa relevante aqui. E isso é muito recente, porque o tema começou a bater na porta de todo mundo. O cara olha e pensa: ‘não sei o que fazer ainda, mas sei que serei atropelado se não fizer nada’. As empresas sabem que alguma coisa vai acontecer. O grande drama é saber como se posicionar corretamente.