dezembro 14, 2019 ·  6 min

“Empreendedor brasileiro tem medo de ser global”

Entrevista com Jon Medved, um dos mais respeitados empreendedores em série de Israel e fundador da plataforma de investimentos de risco OurCrowd, recém chegada ao Brasil

Por Dubes Sônego

O americano Jonathan Medved tem um longo histórico de investimentos em empresas de tecnologia. Na Califórnia, onde nasceu, ajudou a fundar e foi executivo de empresas como a Meret, pioneira em comunicação de vídeo por fibra ótica. Em meados da década de 1990, mudou-se para Israel e cofundou a Israel Seed Partners (ISP). Nos dez anos seguintes, a empresa, um fundo de capital de risco, alcançaria os US$ 260 milhões em investimentos, distribuídos em cerca de 60 startups, e ajudaria Medved a se tornar um dos americanos mais influentes no país. Desde 2013, dedica-se à OurCrow, plataforma global de investimentos em startups, que acaba de lançar no Brasil. Criada com a proposta de “democratizar” o acesso a boas oportunidades de investimento em capital de risco, a plataforma tem hoje cerca de 37 mil investidores qualificados, em 183 países, e já levantou US$ 1,3 bilhão, investidos em mais de 200 empresas – entre elas, a unicórnio Beyond Meat, de “carne” à base de vegetais. De Israel, Medved falou à The Funnel sobre os planos de sua empresa para o Brasil e a América Latina, o ecossistema de inovação no país e na região, e sobre o futuro do capital de risco no mundo.

Como você vê o ecossistema brasileiro de inovação e de startups? Quais as principais forças e fraquezas do empreendedorismo no país?

A principal força é o enorme mercado interno. É imenso, ainda pouco explorado e pronto para a inovação. E hoje ainda há uma atmosfera muito favorável aos negócios. A principal fraqueza é que os negócios são obsessivamente focados no mercado local. Têm medo de ser globais. Os empreendedores não têm ainda a ousadia de disputar espaço com companhias ao redor do mundo. Porque têm esse grande mercado local. Vemos muitas companhias que não têm materiais em inglês, que querem discutir tudo em reais. Pode funcionar no Brasil. Mas não ajuda a construir uma potencial global. Em Israel, todas as companhias pensam globalmente desde o primeiro dia, porque somos muito pequenos.

Quais as melhores oportunidades, em termos de setores, no Brasil? E por quê?        

É muito difícil dizer, porque setores vêm e vão. Somos agnósticos em relação a setores. Investimos em todos. Na nossa plataforma, temos empresas de tecnologia em alimentos (foodtech), agricultura, cyber segurança, inteligência artificial, direção autônoma, saúde digital (digital health). São todos setores interessantes. O problema é que o timing é sempre crítico. Há cerca de um ano e meio, todos estavam absolutamente seguros de que os carros autônomos seriam adotados muito em breve. Hoje, todos entendem que vai haver atraso. Isso não significa que direção autônoma não seja uma ótima área para investir. Estamos pesadamente investidos nisso. E estamos indo bem. Mas significa que você não pode apostar em apenas um setor, assim como não pode apostar em apenas uma companhia. Esse negócio todo é sobre diversificação. Você tem que pegar setores diferentes, empresas em estágios diferentes. É preciso investir como em ações, de forma constante, ao longo do tempo. 

“Somos agnósticos em relação a setores. Investimos em todos. […] O problema é que o timing é sempre crítico”.

Como você vê o futuro do capital de risco?

Acho que é imenso e mais democrático. Capital de risco tem sido um brinquedo dos ultrarricos e de fundos de pensão e outras instituições muito, muito grandes. Mas mesmo algumas grandes instituições, e a maioria das pessoas ricas, não têm tido acesso. Imagine alguém com US$ 5 milhões. Ele não consegue investir sozinho, não consegue pegar o telefone e ligar para um fundo de investimentos no Vale do Silício e participar deles. Não é assim que funciona. Mas através de plataformas como a OurCrowd já é possível que alguém se torne sócio de um Bill Gates em companhias como Beyond Meat.

O que motivou a vinda da OurCrowd ao Brasil? 

Sempre tivemos a intenção de construir uma plataforma global de investimento em inovação, porque acreditamos que os mercados e a inovação são globais. A maioria dos empreendimentos de capital de risco é muito local ou regional. Mas isso está mudando. O Softbank claramente está tentando fazer coisas globais. Há outros também. Há muito valor a ser desbloqueado ajudando investidores que vivem em São Paulo a se conectarem com empreendedores que estão em Israel. Ou ajudando companhias brasileiras que precisam de novas tecnologias a se associar com companhias que podem estar na Europa, nos Estados Unidos ou em Israel. Os problemas e desafios enfrentados por elas não são regionais. São de todos. Portanto, as soluções, ferramentas e plataformas para enfrentá-los precisam ser globais. O segundo motivo é que acreditamos que a América Latina, e o Brasil em particular, é um dos mercados mais excitantes do mundo, em termos de potencial de crescimento para capital de risco e investimentos em inovação. Na América Latina como um todo, o investimento em capital de risco está em algo entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões por ano. Israel, sozinho, vai investir cerca de US$ 8 bilhões. Ou seja, o país tem menos de dez milhões de pessoas e está investindo cerca de quatro vezes mais que a quantia investida em toda a América Latina, que tem quase 700 milhões de pessoas. Há muito potencial de crescimento. Há muitas pessoas com as quais estamos conversando investindo grandes quantias de dinheiro aqui. O volume está crescendo de forma dramática. 

Jon Medved na edição de 2018 do OurCrowd Global Investor Summit, maior evento de investidores em capital de risco de Israel

A OurCrowd está buscando startups para investir ou clientes? Quais os planos no Brasil?

Ambos. Começamos trazendo clientes para a nossa plataforma, porque investidores são chave para tudo. Fornecem capital, conexões, nos apresentam startups e oportunidades de investimento. Em seguida, começamos a incluir empreendedores. Definitivamente, estamos buscando investimentos que possamos fazer no Brasil. E, mais importante de tudo, nossos planos também incluem corporações. Porque o Brasil hoje é um mercado muito grande. As companhias brasileiras precisam de inovação, que pode vir do Brasil ou de fora. Gostaríamos de entender quais as necessidades delas em inovação, e como nosso portfólio, de 200 companhias, pode ajudá-las a suprir essas necessidades.

Está então buscando também negócios para as startups investidas pela OurCrowd.

Exato. Estamos envolvidos em três grandes atividades. Uma é procurar negócios. Temos que ter constantemente novos negócios vindos de Israel e de outras partes do mundo. Quando olhamos o que está havendo na América Latina, há todo um novo grupo de companhias muito excitantes sendo construídas. Também buscamos investidores, porque estamos construindo uma rede global de investidores. E investidores que trazem não só dinheiro, mas também contatos, conexões e sabedoria. E isso nos leva ao terceiro elemento, que é como podemos ajudar as startups do nosso portfólio a fazerem melhores negócios em uma região como a América Latina e, em particular, o Brasil.

Vocês terão um escritório no Brasil? Qual será a estrutura da OurCrowd no país?

Temos um representante no país, o Rodrigo Monteiro, que é um dos nossos investidores.

No Brasil, nem todos podem investir em companhias estrangeiras. Mesmo para a classe média, não é algo tão fácil. Que tipo de investidores vocês estão buscando? 

De acordo com a legislação brasileira, você precisa ter cerca de meio milhão de dólares em ativos disponíveis para investimento para estar qualificado. É bastante dinheiro para os padrões brasileiros. Mas o Brasil é um país grande. Estimamos que haja milhões de famílias que atendem o critério. É um grande mercado para nós.

Qual é o aporte mínimo na plataforma?

É de US$ 10 mil. 

Muitas startups não lucram por um longo tempo. Amazon e Uber são exemplos disso. Como a OurCrowd faz dinheiro para os clientes? 

Antes, as companhias de tecnologia abriam capital muito mais cedo. Microsoft, Apple, Google. Hoje em dia, essas companhias permanecem fechadas por muito tempo. Por isso, investidores mais espertos estão sendo forçados a tentar entrar em companhias que ainda são privadas. Mas todos também sabem que é virtualmente impossível ter acesso a elas. Se você é um cara com algum dinheiro, em São Paulo, como você investe em uma companhia privada no Vale do Silício? É isso que estamos fazendo, ajudando as pessoas a terem acesso a esses negócios privados. E fazemos dinheiro quando uma de nossas companhias abre capital ou é comprada. Quando abre capital, nós liberamos as ações para o cliente. Vendemos para ele, se ele quiser, ou as repassamos para que escolha o que fazer com elas. 

Pode dar exemplos?

Uma companhia na qual investimos recentemente foi a Beyond Meat. Tivemos sorte de entrar cedo na companhia e trazer nossos investidores para dentro. Fornecemos acesso a ela a toda a nossa rede no mundo. Todos puderam investir por um valor relativamente baixo. Agora, ela se tornou uma companhia pública, avaliada em quase US$ 10 bilhões. Tínhamos também uma companhia no Canadá, chamada Wave Financial, de softwares de contabilidade para pequenas empresas. Investimos cedo e ela foi comprada recentemente pela H&R Block, companhia americana de preparação de impostos, por US$ 405 milhões. As pessoas que investiram conosco multiplicaram seu dinheiro com uma transação de M&A.

“Fornecemos acesso a ela [Beyond Meat] a toda a nossa rede no mundo. […] ela se tornou uma companhia pública, avaliada em quase US$ 10 bilhões”.

Qual o retorno médio na OurCrowd?

Até agora, se você olhar a performance de todas as companhias, todas as companhias que foram compradas, abriram capital ou fecharam, porque algumas fecham, a taxa interna de retorno foi de cerca de 15% líquidos. Mas algumas pessoas têm portfólios com rendimentos melhores, outras com rendimentos piores. E temos ainda 21 fundos de investimento, vários deles com retornos na casa dos 20% e dos 30%.