novembro 14, 2019 ·  5 min

Design, um hotel canadense e o futuro do capitalismo

*Por Fabio Calzavara

19 de Agosto de 2019: os membros da Business Roundtable – que inclui CEOs de quase 200 companhias, entre elas GM, Pepsico, Apple e JP Morgan – emitem uma declaração afirmando que o valor para o acionista não é mais seu principal objetivo. Agora, investir nos funcionários, entregar valor aos clientes, negociar de forma ética com fornecedores e apoiar a comunidade estão na vanguarda dos objetivos das empresas americanas. Aguardamos ainda os resultados práticos dessa carta de intenções, mas a notícia ressoa positivamente, até porque não há mais espaço para o capitalismo irresponsável, que enxerga apenas o lucro e o resultado para o acionista a qualquer custo. Na realidade nunca houve, mas a humanidade trilhou esse caminho por muitos anos. 

Durante a Service Design Global Conference 2019, realizada em Toronto quase dois meses depois dos eventos da Business Roundtable, pudemos observar algumas ações que demonstram primeiros passos na mudança para um capitalismo que enxerga o mundo de forma mais sistêmica e responsável – e pasmem! – não menos lucrativo. Uma dessas ações vem em um formato hospitaleiro: o Fogo Island Inn, idealizado por Zita Cobb e sua Shorefast Foundation.

Primeiro, é importante um rápido contexto sobre a localização do hotel: Fogo Island, uma ilha que por séculos se apoiou na pesca artesanal, e com a industrialização da atividade foi perdendo receita até quase questionar a sua própria identidade. Sem quase conseguir pescar, quem eram seus habitantes? No que a ilha tinha se tornado?

Após uma carreira extremamente bem sucedida em empresas de tecnologia e um incrível timing para exercer opção de venda de ações logo antes da bolha das pontocom, Zita Cobb criou a Shorefast Foundation, visando devolver a esperança às pessoas da ilha através de incentivos econômicos. O primeiro tiro saiu pela culatra: a fundação distribuía bolsas de estudo para alunos ingressarem em universidades fora da ilha, o que apenas provocou a fuga dos melhores cérebros jovens de Fogo Island. Contudo, após ser questionada por uma local se ela não poderia fazer nada para criar empregos dentro da ilha, Zita teve que expandir suas ideias e pensar em uma nova atividade econômica.

“Se o motor morre, você constrói um novo motor”

Com poucos recursos restantes na ilha o caminho foi partir para algo capaz de iniciar um movimento pela sustentabilidade econômica do local, ligado às origens e à cultura da ilha. Algo que fosse “apropriado da população e único, contendo alegria, história e tempo” segundo a própria Zita. Durante a apresentação, pudemos observar três grandes momentos pelos quais o projeto passou para entregar essa experiência singular que transforma as vidas dessa comunidade.

1. O entendimento de nós mesmos

O primeiro passo da fundação foi olhar para as raízes da ilha e entender aquilo que eram. A hospitalidade era desde muito compartilhada entre os habitantes da ilha, sendo ao lado da atividade pesqueira um dos alicerces sociais da comunidade. Olhando para sua própria história e costumes, Zita e os irmãos co-fundadores da Shorefast chegaram no que seria o mais badalado empreendimento da ilha, um hotel. Mas para o negócio dar certo, eles entenderam que seria essencial que o resultado final fosse autêntico: para isso os irmãos sabiam que era necessário fazer de uma forma diferente. 

2. Projetar é perpetuar histórias

“O poder do design”, como Zita mesmo definiu a um certo ponto da apresentação, foi fundamental para traduzir os elementos históricos e culturais da Fogo Island para a materialização do hotel. A fase de desenvolvimento do projeto arquitetônico durou cerca de 8 anos. Segundo Zita, foi um processo altamente colaborativo: arquitetos e designers trabalharam lado a lado dos artesãos, construtores e artistas nativos da ilha, resultando em uma grande troca de conhecimento e na fabricação do maior número de produtos possíveis dentro da própria ilha (papel de parede, luminárias, cabides e cadeiras são alguns exemplos de produtos que continuam a ser produzidos e vendidos pela comunidade).

A tradição centenária de construção das casas de madeira suspensas inspirou a estrutura do prédio, enquanto técnicas de construção naval influenciaram o design dos móveis e as estampas criadas por artesãos locais se transformaram em cortinas e revestimentos para os quartos. O design se tornou uma ferramenta que ajudou a ilha a traduzir seu conhecimento em algo contemporâneo, ajudando-a a criar conexões através do tempo. Ao decidir por recuperar essas referências históricas e trazê-las para esse projeto moderno, Zita indica que a arquitetura e a decoração do hotel não foram projetadas à toa e que os habitantes mais antigos da ilha não viveram por nada – afinal seu legado vive e continua a impactar mais e mais pessoas

3. Gestão transparente

Impossível não mencionar o que talvez tenha sido o output mais interessante de todo o projeto, as “Informações Nutricionais Econômicas” do Fogo Island Inn. Em um movimento que tangibiliza muito bem conceitos de visão sistêmica e relacionamentos em rede buscando a sustentabilidade, a Shorecast Foundation utiliza um modelo de comunicação muito conhecido para indicar para onde vão as receitas do hotel.

Como se fosse um selo de informações nutricionais, o Economic Nutrition nos dá a divisão da receita obtida entre a mão de obra, gastos com suprimentos, taxas, custo operacional, marketing e margem de lucro. A clareza nessa distribuição não apenas cria uma relação mais próxima com os hóspedes/clientes como também aumenta o senso de pertencimento da comunidade envolvida no projeto. Receita gerada e mantida na ilha.

Importante observar que o conjunto de todas essas iniciativas, desde o planejamento até a gestão do hotel, construíram um modelo de negócio muito coerente e autêntico, em que todos os detalhes foram trabalhados. As pessoas estão dispostas a pagar mais por autenticidade, e se ela vier junto de uma história bem contada, as chances de sucesso serão ainda maiores. Aproveitemo-nos das nossas habilidades, histórias, expertises e culturas – tanto individuais como empresariais para criar mais histórias autênticas. Zita, a um certo ponto, mencionou que tudo que ela aprendeu em escolas de negócio “é como uma couve-flor: um belo fractal, mas é apenas um padrão que se repete”. Façamos como ela e a Shorefast e busquemos ideias para além desse fractal.

*Fabio Calzavara, service designer e head de inovação e design na Hapvida