maio 22, 2020 ·  8 min

“A pandemia reforça a tese de investimento das deeptechs”

Para Guy Perelmuter, CEO da gestora de investimentos de risco em empresas de base científica Grids Capital, startups da área terão aumento de demanda

Por Dubes Sônego e Guilherme Manechini

A Covid-19 já está impactando os negócios de startups construídas sobre descobertas científicas com potencial revolucionário, as chamadas deeptechs. Tendências que já vinham sendo observadas no mercado, como teletrabalho, telemedicina e educação à distância, ganharam novo impulso com a pandemia e deverão puxar os negócios em verticais que vão de meio ambiente e cibersegurança à energia e infraestrutura tecnológica.

O Brasil, no entanto, tende a ter participação secundária neste segmento. O motivo é não só a dificuldade estrutural para se fazer negócios, mas também a falta de uma política clara para ciência e tecnologia, situação agravada pelos recentes cortes de recursos para a área.

As avaliações dos cenários brasileiro e internacional é de Guy Perelmuter, fundador e CEO do Grids Capital, um fundo de capital de risco especializado em deeptechs. Perelmuter é também autor do livro “Futuro presente — o mundo movido à tecnologia”, lançado no final de 2019, no qual trata de tecnologias atuais, como inteligência artificial, blockchain e impressão 3D, com linguagem simples e acessível a leitores leigos.

Na entrevista a seguir, o gestor e autor, que acompanha a área há mais de 20 anos, fala ainda sobre a participação das startups nos esforços integrados de combate à pandemia, o momento atual do mercado, as perspectivas futuras e a situação da China na corrida pela vanguarda tecnológica do mundo, entre outros assunto.

Qual o impacto da pandemia do Covi-19 sobre o cenário de deep techs?

A despeito do custo humano e do impacto na vida de todos nós, a pandemia favorece a tese de investimento das deep techs, de um futuro mais técnico, mais ancorado na ciência. Vai acelerar tendências que a gente já estava percebendo e várias vão acabar refletindo, de forma significativa, em startups de deep tech.

Quais tendências citaria?

Tem várias. Futuro do trabalho e da educação, por exemplo. Estamos vendo crianças, universitários e executivos aprendendo a conviver com a educação à distância, que já era tendência pré-pandemia. No trabalho, a nossa rotina agora é cercada de reuniões virtuais. Há também a parte toda de saúde, com consultas, monitoramento e diagnóstico à distância. As indústrias estão aumentando a automação. A parte toda de meio ambiente. Essa pandemia também está servindo para mostrar que estamos na reta final de um processo de aquecimento global que, se não for revertido, pode trazer consequências que a gente não vai ter absolutamente nenhuma forma de combater. Infraestrutura tecnológica, cibersegurança, robótica, veículos autônomos, impressão 3D, biotecnologia, novos materiais, energia. Todas essas verticais de deep tech vão acelerar nesse contexto.

Os reflexos já são sentidos, no curto prazo, ou deverão ser sentidos no meio e longo prazo, com a atração de mais investimentos de risco?

Na parte de deep techs globais já há claramente indícios de que isso já está acontecendo. Várias empresas com as quais trabalhamos estão sentindo os efeitos de maior procura, demanda e receita por causa do contexto. No Brasil, temos um quadro paradoxal. Temos empreendedores de alta qualidade, com formação acadêmica de primeira e centros de formação tecnocientíficos que não ficam nada a dever. Só que o ambiente para inovação em deep tech ainda carece de alguns pedaços imprescindíveis.

No enfrentamento da epidemia, que gargalos ficam mais evidentes? Que pedaços são esses?

A inovação, e em particular a de base científica, em geral começa muito antes da primeira captação de investimento. A startup que está tentando levantar recursos, no caso das deep techs, já tem um histórico desde um projeto universitário, de mestrado ou doutorado. Em países onde o ecossistema de inovação hard e deep tech é avançado, o ambiente universitário é intimamente ligado ao ambiente de fomento de agências de governo, de departamentos e ministérios, de órgãos de pesquisa. Isso permite que façam pesquisa e desenvolvimento e que cheguem ao mercado quando uma parte muito importante do risco para o investidor já foi endereçada ou diluída. Esse pedaço da história, no Brasil, não é comum. Não é que falte dinheiro para a educação. Mas o recurso não é bem aplicado ou gerenciado. O outro lado da moeda é a dificuldade estrutural de fazer negócios no país. Esse é o pano de fundo. Quando você passa para um problema efetivo, como é a Covid-19, e precisa botar rapidamente testes na rua para saber como anda a situação da população, ter políticas de rastreamento de contato, essas ineficiências e vulnerabilidades do nosso ecossistema acabam ficando mais evidentes. Temos exemplos pontuais, muito positivos, da capacidade criativa que temos no Brasil. Como as pesquisadoras que conseguiram fazer o genoma da Covid-19 no Brasil, no início da pandemia. Mas isso é feito sobre uma plataforma que precisa ainda de muitas melhorias.

Há áreas de deep techs que podem ser afetadas negativamente? Quais?

Deep tech é um termo muito genérico. Mas há áreas sendo questionadas. Tem muita gente questionando como ainda não se viu uma adoção mais relevante de realidade virtual na pandemia. É um cenário ideal para a adoção da realidade virtual, por uma série de motivos. Mas não aconteceu. As pessoas estão se perguntando, se não adotaram agora, vão adotar quando? Mas eu não sei se a área está sendo prejudicada. Só não está sendo beneficiada.

Quais novas tecnologias ou pesquisas para o tratamento da covid 19 chamaram mais a sua atenção?

Há hoje mais de 250 produtos para diagnosticar a Covid, em diferentes estágios de desenvolvimento; mais de 100 moléculas, compostos ou drogas sendo estudadas e 15 vacinas em estágio clínico de testes. Estou na área há 20 anos. Nunca vi nada parecido, em termos de concentração de recursos em um tema só. O que chama a atenção é, primeiro, a velocidade com que você consegue fazer a validação e o teste de algumas moléculas e da eficiência delas em relação à Covid. Outra coisa é o acesso que se vê globalmente a ferramentas de processamento, armazenamento, simulação e sensoriamento que permitem a pesquisadores do mundo todo colaborarem. Ferramentas como o sequenciador genético, que consegue determinar toda a cadeia de DNA que explica a estrutura molecular ou genética do vírus. Apesar de ser uma pandemia em muito sentidos inédita, estamos vendo uma configuração do ecossistema de inovação, em particular da área de biotecnologia, que oferece maiores chances de soluções para o problema em sua raiz.

A gente está falando de uma corrida global. Mas, sem dúvida, Estados Unidos e China lideram. Qual o papel da China nessa corrida?

É um player muito relevante. Das 15 vacinas já em estágio clínico de estudo, cinco ou seis são projetos na China. Obviamente, começaram na frente, tanto na identificação de contaminação, quanto no enfrentamento e no controle. E têm uma política muito clara em relação à ciência e à inovação, apesar de todas as críticas que podem ser ao seu sistema semi ditatorial. É óbvio que nesse contexto, se incluem práticas comerciais e de espionagem industrial, que são complicadas de analisar de forma isolada. Mas a China já identificou há muito tempo que, para ser a potência mundial que aspira ser, e já é, esse é um vetor que, se não for o mais importante, vai ser um dos mais importantes. Qualquer nação que queira relevância no cenário global terá que ter uma área de ciência e tecnologia extremamente forte. Não é uma hipótese, é uma certeza, olhando o cenário geopolítico.

Essa virada tecnológica da China, de produzir baixa tecnologia para avançar em alta tecnologia na sequência, talvez tenha a epidemia da Covid 19 como marco de virada?

O grande marco dessa virada já aconteceu quando a China entrou em processo acelerado de urbanização. Estamos vendo agora iniciativas como a da nova Rota da Seda. Isso tudo acaba criando uma zona de influência que, como tudo que é feito lá, é pensado para daqui a cinco, dez, vinte anos na frente. Acho que a China não vai sair muito da rota que desenhou para si. Ela tem um ecossistema de inovação que atende muito aos próprios interesses, e uma tremenda demanda interna. O que está olhando agora é muito mais como as grandes descobertas científicas vão sair das universidades e laboratórios locais. Uma parte muito expressiva dos estudantes de pós-graduação e de graduação, nas melhores universidades dos Estados Unidos, são chineses. O que acho que a China está querendo fazer é trazer essa expertise de voltas, trazer e formar professores qualificados para ter um ecossistema completo, internamente, que possa endereçar não apenas soluções ligadas a consumo, como dinheiro virtual, mas também projetos de fundo mais científico, que exijam inovação mais robusta academicamente.

Você destaca alguma startup que tenha realmente mostrado uma solução de impacto nesta pandemia?

Sem entrar em nomes específicos, há startups dedicadas a acelerar o processo de descoberta de quais vão ser as substâncias eficientes para o combate da Covid-19. Em vez de eu ter que fazer estudos que vão levar meses e meses, como posso ter a resposta em dias. Há também startups acelerando toda a parte de análise e validação clínica de um conjunto de drogas. Há empresas que estão desenvolvendo válvulas 3D e adaptadores para que um respirador possa atender a mais de uma pessoa. Existem oportunidades neste ambiente, e demandas que vão sendo identificadas ao longo da crise, que abrem espaço para empresas que eventualmente estão trabalhando em determinados nichos fazerem uma mudança de rota para tentar atender ao que, hoje, é uma emergência mundial.

Do ponto de vista do investidor, é bom momento para identificar boas oportunidades?

Muita coisa vai acontecer nos próximos anos, independente da pandemia. No que tange às deep techs, ainda estamos nos estágios iniciais desse ciclo. As deep techs recebem ainda cerca de ¼ do dinheiro de venture capital nos Estados Unidos. E não acho que vá haver aumento tão significativo nesse número, porque a oferta de startups de deep tech é, e vai continuar a ser, limitada. Porque o tipo de profissional que pode começar uma startup desses tipo tem PhD ou pós-PhD. E não vamos ver o mundo, de repente, ter uma oferta duas, três, quatro vezes maior de PhDs em áreas altamente técnicas. Mas como expectativa de resultados, de viabilidade, de compatibilidade com a demanda da sociedade, é um bom momento. Vamos ver muita coisa interessante sendo implementada e adotada.

Os cortes nos investimentos brasileiros em ciência e tecnologia também podem afetar as perspectivas para o segmento de deep techs no Brasil?

Certamente. Ciência não é custo. É investimento. Isso talvez nunca tenha sido tão verdade. Obviamente, é um problema quando você tem um êxodo de cérebros, como a gente presencia aqui, deixando as universidades; quando tem dificuldade de desenvolver pesquisas localmente; quando tem falta de visibilidade sobre qual é a política de Estado para ciência e tecnologia, e não apenas a política de governo. Porque estamos falando de projetos que são transversais aos governos. Há estudante, professores e pesquisadores que estão precisando botar o trabalho de uma vida em prática. E você tem que dar um ambiente onde esse trabalho possa ser feito em paz, com visibilidade e recursos. No que tange à academia, o Brasil está sempre figurando entre os 15 ou 20 países mais relevantes em publicações de artigos científicos. Mas quando você compara isso com indicadores de eficiência e capacidade de execução prática no mercado, tem um paradoxo que é extremamente frustrante para o pesquisador, o investidor e o empreendedor e que, na medida em que você asfixia ainda mais os investimentos na área, só amplifica a crise.

Queria só entender um pouco melhor a necessidade dessas políticas públicas. Quando falamos da área de saúde, e de uma inovação mais científica, a barreira de entrada por causa do investimento é muito alta. Este é um dos gargalos principais?

De modo geral, o empreendedor de deep tech precisa de um laboratório, de equipamentos, de máquinas. Você já vê a iniciativa privada aqui tentando fechar um pouco esse hiato. Várias universidades que têm equipamentos fazem esforços de viabilizar o uso não apenas em projetos acadêmicos, mas também para o desenvolvimento de produtos e serviços. Só que isso não é estrutural. É fruto de esforços individuais de um reitor, de um chefe de departamento. É quase que uma política ancorada não na instituição, mas nos indivíduos. E obviamente essa não é uma fórmula para o longo prazo. Você precisa ter um ambiente onde institucionalmente as regras sejam muito claras, haja recursos e disponibilidade. Onde um empreendedor que queira fazer um projeto saiba que terá um pouso e recursos. Não estamos advogando que o governo banque o risco do investidor. Mas há que haver incentivos corretos para que todos os atores do ecossistema façam sua parte. É essa heterogeneidade que é um entrave para figurarmos com algum destaque no cenário global.