dezembro 4, 2019 ·  5 min

A inovação é uma jornada: case Orbia

Nos últimos dois anos, o grupo mexicano Orbia, com presença em 13 países, incluindo o Brasil, apostou forte na inovação. E o israelense Shai Albaranes é quem lidera este movimento

Por Talya Vaish, de Tel Aviv

Em fevereiro de 2018, a Orbia (antiga Mexichem) nomeou Daniel Martinez- Valle como seu novo CEO. Então no comando da Kaluz, uma empresa do grupo, e com a experiência de ter sido diretor de estratégia e planejamento da Cisco no mundo, Martinez-Valle tinha uma visão clara do rumo que queria que a empresa tomasse. Em sua primeira semana no escritório, disse que “os últimos 15 anos foram ótimos, mas se queremos que os próximos 15 sejam ótimos também, temos que fazer mudanças significativas”. Para alcançar isso, montou uma equipe de transformação com 15 pessoas de todo o mundo que abordou diferentes aspectos da organização. O israelense Shai Albaranes era uma dessas pessoas e compartilhou que o primeiro passo era entender e formalizar o objetivo e os valores da organização.

Entrei no prédio da subsidiária Netafim em um dia quente. Ele não fica na parte mais glamourosa de Tel Aviv, mas quando entrei, e Shai Albaranes me recebeu, o escritório era convidativo, bem projetado, colorido e muito iluminado. Esse foi o primeiro sinal de que a Netafim e a Orbia não são exatamente o que se espera de um conglomerado industrial.

Um dos principais grupos petroquímicos do mundo, com vendas anuais na casa dos US$ 7,2 bilhões, com 22.000 funcionários e presença mundial, inclusive no Brasil, a empresa é líder global em cinco verticais diferentes. É o maior produtor de flúor, além de atuar com polímeros, infraestrutura urbana, agricultura (Netafim) e fibra ótica.

A JORNADA DE SHAI
Os executivos de inovação geralmente seguem caminhos não tradicionais e variados antes de vestirem a camisa da área. Shai não é diferente. Ele teve sua primeira experiência empresarial logo após o exército. Era o 50o aniversário de Israel e ele e um amigo, por não estarem muito interessados no que o mercado de trabalho tinha a oferecer aos soldados recém-dispensados, criaram um jogo de tabuleiro que ensinava às crianças a história de Israel. O momento funcionou a seu favor e o jogo recebeu muita atenção da mídia, e grandes lojas e organizações logo quiseram comprá-lo. Com o dinheiro do jogo, viajou por um ano.

De volta a Israel, recebeu uma bolsa para estudar ciência da computação no Centro Interdisciplinar. Mais tarde, ingressou no Programa de Empreendedorismo Zell. O programa, considerado um dos melhores do país, senão do mundo, ensinou-lhe muitas das habilidades necessárias para o empreendedorismo. Após se formar, trabalhou em marketing e em desenvolvimento de negócios” em várias startups, depois prosseguiu com seu MBA no INSEAD, ingressou na McKinsey em Londres e voltou para Israel. Começou na Netafim em 2012, gerenciando vários projetos dedicados ao aumento do valor de mercado da empresa, depois liderou equipes de marketing de produtos, bem como a unidade dedicada a culturas estratégicas.

OBJETIVO E VALORES
O novo CEO da Orbia deu grande importância à formalização dos objetivos e valores da organização e os viu, entre outras coisas, como uma maneira de unificar as diferentes empresas que compõem o grupo. “Ele queria responder às grandes perguntas: ‘Por que acordamos de manhã e vamos trabalhar? Por que alguém viria trabalhar para a Orbia? Como resolvemos os maiores problemas do mundo?’”, lembra Shai.

Após um processo longo e complexo envolvendo funcionários de diferentes verticais, níveis e localidades, eles acabaram criando o objetivo e os valores da Orbia: “Melhorar a vida ao redor do mundo” (objetivo) e “Diversidade, responsabilidade e bravura” (valores).

Em paralelo ao processo de objetivo e valores, a equipe de transformação também abordou outros pilares importantes, como estratégia, digital, talento, sustentabilidade, processos internos e inovação. Shai foi escolhido para liderar o pilar da inovação.

TORNANDO-SE VICE-PRESIDENTE DE INOVAÇÃO E EMPREENDIMENTOS
Depois que foi escolhido para liderar a inovação, o executivo começou a conversar com qualquer um que tivesse inovação no título de seu cargo ou estivesse vinculado ao campo de alguma forma (VC, aceleradoras, incubadoras, etc.). “Tentei entender como as pessoas encaravam esse papel de inovação e depois fui desenvolver a minha própria concepção”, disse. A leitura de livros e artigos sobre o tema contribuiu bastante (ele recomendou “Beyond the Champion”, de Gina Colarelli O’Connor, Andrew C. Corbett e Lois S. Peters), mas a principal recomendação foi sair e conversar com as pessoas na mesma posição.

Ao ir a campo, Shai resolveu que sua primeira tarefa seria definir o que significa inovação. “Decidimos pela seguinte definição: ‘Criar algo novo, que atende a uma necessidade e cujo valor econômico é maior que o custo de desenvolvimento’”, conta.

Ele então definiu, em conjunto com o CEO, o papel da área que liderava para a Orbia – estabelecer um ambiente no qual a inovação pudesse ser sistematicamente criada e comercializada para cumprir o objetivo do grupo e impulsionar o crescimento futuro. “Era importante deixar claro a toda a organização a necessidade de abordar todos os três níveis de inovação – central, adjacente e transformacional (com base no modelo de inovação de Christensen).”

O próximo passo foi chegar a um acordo com o CEO da Orbia sobre os principais objetivos da inovação: “gerar novas receitas, acima e além dos planos de crescimento de cada um dos grupos de negócios, e criar uma cultura de inovação focada em olhar e trazer inovação de fora para aumentar exponencialmente o ritmo da experimentação e de aprendizado”, diz o executivo.

Por fim, definiu as quatro principais atividades que passaram a compor o ecossistema de inovação da Orbia. A estrutura inclui:

VENTURES ORBIA
O fundo de capital de risco corporativo (CVC), que é o veículo para investir em startups e permitir trazer inovação de fora para dentro.

PARCERIAS COM STARTUPS
Uma plataforma para parcerias de startups (Open Innovation), independente do fato de ocorrer o investimento. É importante reconhecer que a cultura e a velocidade de uma startup são completamente diferentes da cultura de uma grande organização. Esta é a razão pela qual tantas parcerias fracassam. “Criamos uma equipe dedicada e os processos
necessários para tentar superar esses desafios.”

INTRAEMPREENDEDORISMO
Um programa interno de inovação que foi projetado para permitir que cada funcionário da organização sugira sua ideia e, mais importante, crie o programa certo, os processos adequados, o treinamento correto para essas ideias, para realmente ter sucesso e gerar receita para a Orbia.

LIGHTHOUSE LABS

  1. O Lighthouse Labs é o novo mecanismo de inovação da Orbia — uma colaboração com a IDEO. A visão do Lighthouse é lançar novos
    empreendimentos ousados que abordem os desafios globais. Estes são os filtros usados na seleção de projetos do Lighthouse:
  2. Crítico para a estratégia do grupo de negócios da Orbia.
  3. Os projetos também devem estar na interseção do que o Lighthouse faz de melhor, a inovação centrada no ser humano, tecnologia e a experiência no assunto que cada grupo de negócios traz.
  4. Por fim, e talvez o mais importante, os projetos Lighthouse devem focar-se em questões e encontrar soluções que incorporem o objetivo da Orbia e a visão de futuro para esta empresa.

INOVAÇÃO EM UMA EMPRESA GLOBAL
A Orbia é composta por cinco grupos de negócios, cada um focado em um mercado vertical diferente. Shai acredita que os programas de implementação devem ser adaptados à cultura, habilidades e desafios específicos de cada um dos grupos de negócios.

O executivo não está cego para os desafios de seu papel: os efeitos a longo prazo, a suspeita relativa que esse novo papel ainda recebe, a garantia de
um orçamento e muito mais. Antes de encerrarmos nossa reunião, Shai mencionou que seu desafio pessoal nesse papel é trazer algo novo ao mundo da inovação. “Gostaria de acrescentar uma nova pedra à estrada da inovação”, revela Shai. Parece ser só uma questão de tempo.